História da Medicina Veterinária

Autor: Marcell Hideki Koshiyama.
 

No mundo

Carro Egípcio
Carro Egípcio


O exercício da "Ars Veterinaria" confunde-se com os primórdios da civilização humana e sua antigüidade pode ser referenciada a partir do próprio processo de domesticação dos animais. Muito do que se estuda sobre a História da Medicina Veterinária confunde-se coma própria história da Medicina. A Paleontologia aceita que antes da era Antropozóica – que marca verdadeiramente o aparecimento do homem – ou seja no final do Cenozóico, correspondente à época diluvial ou das grandes glaciações, já viviam os seus mais próximos percursores, como o Homo sapiens, que, oriundo da Ásia Central, havia de progredir com armas, bagagens e animais (porque a toda a expansão e deslocação humana correspondia, nessa época, uma forma animal acompanhante) dos altiplanos asiáticos e daí irradiando em múltiplas direções, inclusive para a Europa e Norte de África, deixando atrás de si marcas da sua passagem. O dolicocéfalo Homo europeus fossilis, o tronco mais antigo das raças arianas de que restam vestígios no chamado "homem de Neanderthal" (assim designado pelo fato de restos do seu crânio terem sido encontrados próximo deste local da Prússia Renana, entre Dusseldorf e Elberfel), o "Homem cro-magnon" (cujo esqueleto, de cabeça alongada, foi localizado na França, numa gruta, perto de Eyzies) e, ainda, o Homo alpinus, braquicéfalo, referenciado, como o nome indica, ao maciço dos Alpes.

Com efeito, apenas no Quaternário começa a domesticação dos animais e só posteriormente, à medida que vai adquirindo hábitos sedentários, principia a dedicar-se à agricultura. No Paleolítico Inferior ou Idade da Pedra Lascada, devido a vida nômade e cavernícola, alimenta-se originalmente de frutos e depois da pesca e da caça, esta assada diretamente no fogo, e só mais tarde, no Médio Paleolítico, se dedica à vida pastoril, capturando e estabulando os animais para, em seguida, os domesticar, sobretudo a partir do Neolítico ou Idade da Pedra Polida com o objetivo de explorar suas diversas aptidões, força de tração ou mesmo seu potencial como alimento. Somente no Paleolítico Superior funda os primeiros povoados, aperfeiçoa as armas (neste caso de pedra), produz vasilhas, cozinha os alimentos e envereda, decisivamente, pelas práticas agrícolas, designadamente a da cultura cerealífera. Desta idade as informações são escassas, mas na idade dos metais – do ferro, do cobre e do bronze – aumentam. O homem começa, sucessivamente, a interessar-se pela oleicultura, pela panificação e pelos lacticínios, ampliando assim a utilização dos animais amansados, como o cão, o boi e o cavalo.

De resto, acredita-se ter sido a ovelha, conjuntamente com o cão (os egípcios já domesticavam o cão por volta de dez milénios e o boi e o cavalo 1800 anos antes da era cristã), o primeiro animal domesticado pelo homem, não só por ser um animal fácil de capturar e ser naturalmente pacífico, mas ainda por ser múltipla a sua utilidade alimentar (leite, queijo e carne), mas também pela sua lã e sua pele. Só depois vai domesticar as outras espécies, das quais o cavalo seria uma das últimas a ser conquistada.

Gravura em pedra encontrada perto de Ur, Mesopotâmia, a que se atribui 5000 anos de idade (as cabeças dos cavalos encontram-se dispostas segundo três dos principais tipos de crinas (ereto, pendentes ou sem crinas) e perfil (convexo, reto e côncavo)
Gravura em pedra encontrada perto de Ur, Mesopotâmia, a que se atribui 5000 anos de idade (as cabeças dos cavalos encontram-se dispostas segundo três dos principais tipos de crinas (ereto, pendentes ou sem crinas) e perfil (convexo, reto e côncavo)

O "Papyrus de El-Lahun", encontrado no Egito (região de Fayoum, vila de El-Lahun) em 1890 pelo Arqueólogo inglês W. M. Flinders Petrie que lá realizava suas investigações desde 1889, tem origem no século XVIII a.C. e descreve fatos relacionados a arte de curar animais ocorridos há 4000 anos a.C., indicando procedimentos de diagnóstico, prognóstico, sinais clínicos e tratamento de doenças de diversas espécies animais. É o mais antigo documento que trata sobre a Medicina Animal. O nome deste papiro foi publicado como "Papyrus de Kahun" na respeitada revista "Historia Medicinae Veterinariae" sob o título de A Gênese e a Evolução da Medicina Animal" em 2001 pelo Arqueólogo de Telassonica Dr. Lilá Aspioti-Magra e questionada e corrigida na edição seguinte da mesma revista pela Professora Ângela Von den Driesch, de Hohenfurch, Alemanha, sob o título de "Há um Papyrus Veterinário de Kahun?". A origem do engano se deve a um equívoco por parte de Petrie quanto ao entendimento da pronúncia de "El-Lahun" como sendo "Kahun" ao questionar aos habitantes do local, sobre o nome da vila onde realizava suas escavações.

Existem ainda registros de Imhotep (2980 a 2950 a.C.) escrito no "Papyrus de Smith", também no Egito, cuja fama levou os gregos, mais tarde, a compará-lo a Asklepios (Eskulapios dos romanos), seu próprio deus da Medicina. No Egito antigo, os gatos eram considerados sagrados e qualquer erro cometido pelo Médico com esses animais era punido com a morte. A inclinação dos egípcios pelos animais é tão grande que vai a ponto de divinizá-los: o carneiro como Amon, o touro como Apis e o cão como Anubis. A memória histórica também permite inferir que a Medicina Animal era praticada há 2000 anos a.C. em certas regiões da Ásia e da África, do Egito à Índia Oriental.

Na China, os estudos de Fu Hsi, que teria vivido há 5000 anos, se baseavam nas Leis Cósmicas que constituiriam os princípios básicos modeladores da Medicina Tradicional Chinesa. O Médico Shen Nung, que teria vivido há 4000 anos, dedicou-se ao estudo do poder curativo das plantas. O Imperador Amarelo, Shi Huang Ti, foi o precursor da Acupuntura, nos homens (inicialmente escravos e prisioneiros) e animais. Mas é a Ma Shin Huang que atribui-se o título de pai da Medicina Veterinária Chinesa (é considerado um dos mais importantes hipiatras de seu tempo), senod dele também o mais antigo registro histórico da Acupuntura Animal (utilizada nos cavalos para estimulá-los antes das batalhas).

O código dos Hititas (povos de tronco Israelita, provindo do Norte e fixados na antiga Palestina ou Canaan) é consagrado, em grande parte, à patologia e terapêutica dos cavalos, bovinos e ovinos. A Bíblia cita Abel como o primeiro dos pastores e refere-se aos cavalos do rei Salomão. Os Judeus dão preferência, nos seus registos, às ovelhas e aos camelos, bem como aos asininos e bois de trabalho. Ciro, imperador persa, manda estabelecer, ao longo do seu vasto império, um serviço regular de correio, equipado de malapostas e mudas de cavalos.

Entre os cristãos, judeus e muçulmanos, é cultural a condenação do consumo da carne suína. Isto se deve pelo uso do suíno como sentinela em novos locais de instalação das primitivas tribos nômades destes povos. Como estes animais podiam se contaminar ou se infestar com possíveis enfermidades que pudessem afetar o ser humano, serviam para detectar regiões insanas, prevenindo a contaminação da população (especialmente pela cisticercose). Este foi um dos primeiros relatos na profilaxia das enfermidades zoonóticas.

Por sua vez, na Índia tem início a domesticação do elefante e sabe-se o que se passa ainda hoje nas zonas dominadas pelos brâmanes (eremitas das florestas) com as vacas consagradas. Nos Vedas (o conjunto dos quatro livros que constituem a base da primitiva religião bramânica) ocupam entre outros temas a economia, cosmogonia, Medicina - dos homens e dos animais, reprodução do gado, equinocultura (designadamente através dos xatrias - casta guerreira - socialmente situada entre os brâmanes e os vaixias - plebe - formada pelas classes médias, mercadores e artífices). Antigas escrituras do período Védico (1800 a 1200 a.C.) mostram que os trabalhos com a Medicina Animal eram conduzidas dentro de uma refinada ética, competência e características próprias jamais vista em outra parte do mundo antigo. Os pássaros e os elefantes eram tratados por pessoas treinadas. O mais conhecido dos Médicos de Animais indianos foi Salihotra que escreveu vários textos sobre Hipiatria tendo criado uma legião de Zooiatras (conhecidos como halihotria). É no século IV a.C. que surge o primeiro hospital veterinário de que se tem notícia no mundo por ordem no imperador Asoka. Isso deu origem a uma grande rede hospitalar para animais por toda a Índia.

Especial menção merecem os códigos de Eshn Unna (1900 a.C.) e de Hammurabi (1700 a.C.) - este descoberto no Iraque, perto de Ur, sobre o Eufrates, junto do templo de Abraão - originários da Babilônia, capital da antiga Mesopotâmia, onde são registrados referências à remuneração e às responsabilidades atribuídas aos Médicos dos Animais.

Hammurabi, então rei da Babilônia, fez publicar no Código, algumas normas, entre elas:

§ 224 - Se o Médico de Animais curou uma ferida grave de um boi ou asno, o proprietário lhe dará como pagamento 1/6 de siclo (moeda de prata).

§ 255 - Se o Médico de Animais tratou um boi ou asno duma ferida grave e causou-lhe a morte, ele dará 1/4 de seu valor ao proprietário.

Pesquisas arqueológicas mostram que em 2500 a.C., na Suméria, Baixa Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates (atual Iraque) já haviam pessoas dedicadas a arte de curar animais, sendo Urlugaledinna (súdito do rei Uningirsu), na cidade suméria de Lagash o mais antigo nome conhecido. Este dado permaneceu perdido no tempo.

Na Europa, os primeiros registros sobre a prática da Medicina Animal originam-se da Grécia na época de Péricles (419 a 429 a.C.), com os "Hippiatras". Na mitologia grega não foi diferente o culto animal: a Chiron, um centauro, mistura de homem e de cavalo a quem é atribuída a criação de uma Medicina Comparativa e a qualidade de preceptor dos filhos de Apolo (Médico dos Deuses) e Coronis, Asklepios (ou Eskulapios), o deus da Medicina para os gregos (e famoso cirurgião e herbalista) e Melampus. Esculapio tratava de seres humanos e de animais. Existe uma moeda romana con Eskulapios tratando de animais. Melampus (1380 a.C.) tratava ovelhas e acreditava-se que possuía a capacidade de comunicar-se com os animais. Aristaios, outro pupilo de Chiron, chegou a ser um grande Médico de Animais. O centauro, símbolo de Chiron, tornou-se o símbolo da "British Veterinary Association" e da "American Veterinary Medical Association" em 1898.

Segundo a lenda grega, Asklepios, foi morto (com um relâmpago) pelo rei dos deuses, Zeus (Júpiter para os romanos) por ter diminuído a população de Hades, passando a ser adorado em diversos santuários da Grécia, sendo o mais famoso o de Epidauro (onde seus sacerdotes vestiam trajes brancos, de onde alguns acreditam ser a origem do vestuário branco utilizado por profissionais da saúde). Hígia, sua filha, cujo nome deu origem ao vocábulo higiene, era considerada a deusa da saúde.

O símbolo de Asklepios era uma serpente enrolada em um caduceu e baseia-se na deusa serpente Amphiaraos, mito egipcio levado a Grécia. Ela curava os enfermos através dos sonhos. Em 1902 o Departamento Médico do Exército dos Estados Unidos adotou o caduceu como insígnia. Agregando uma letra “V” sobreposta, pasou a ser o símbolo da profisão médica veterinaria norte americana e do United States Army Veterinary Corp.

Alcmeon de Croton (500 a.C), discípulo de Pitágoras e considerado um dos expoentes da Medicina Grega, discecando animais descobre o nervo óptico, a tuba auditiva (descrita por Eustáquio cerca de 2000 anos depois) além de aludir a idéia da dominância do cérebro sobre as funções do corpo (confirmado posteriormente por Hipócrates) Também Xenofonte (século IV a.C.), na época pré-romana, para além dos livros clássicos conhecidos, como a "Anabase", tratou temas da área médico-veterinária, que vão desde a criação de cães até à criação de cavalos. Igualmente, Arquelau de Mileto, contemporâneo de Hipócrates, publicava vasto tratado (grande parte da qual se perdeu no tempo) sobre matéria médica veterinária.

Apsirtos é considerado no mundo ocidental a partir dos helenos, o pai da Medicina Veterinária. Nasceu no ano 300 da nossa era, em Clazômenas, cidade litorânea do mar Egeu, na costa ocidental da Ásia Menor. Estudou Medicina em Alexandria, tornando-se, posteriormente, Hippiatra chefe do exército de Constantino VII, O Grande, durante a guerra contra os povos Sarmatas do Danúbio, entre 332 e 334. Após a guerra, exerceu a sua arte de curar animais em Peruza e Nicomédia, cidades da Ásia Menor, criando uma verdadeira escola de "Hippiatras". Entre os assuntos descritos por Apsirtos, merecem referência o mormo, enfisema pulmonar, tétano, cólicas, fraturas, a sangria com suas indicações e modalidades, as beberagens, os ungüentos. Sua obra revela, enfim, domínio sobre o conhecimento prevalecente na prática hipiátrica da época.

Hipócrates de Cós (460 a 377 a.C.), conheceu no Egito a Obra de Imhotep (o "Papyrus de Smith"), fundando uma escola de Medicina em Cós na Grécia e se tornando o primeiro Médico da humanidade (é considerado o pai da Medicina e a quem é atribuido a autoria do Juramento de Hipócrates a que todo Médico é obrigado a realizar no ato de sua graduação). Apesar disso foi também estudioso na arte de curar os animais. Possuía bons conhecimentos de Osteologia, entretanto sua visão geral do corpo humano algumas vezes era equivocada e superficial. Os conhecimentos médicos de Hipócrates foram divulgados por meio da "Coleção Hipocrática" de escritos médicos onde suas impressões eram dadas junto com descrições de lesões cardíacas, fraturas, etc. A Medicina Hipocrática foi ensinada nas escolas de Medicina européias até o século XVI.

O Filósofo grego Aristóteles (384 a 322 a.C.) mentor de Alexandre "o Grande" (Rei da Macedônia) e discípulo de Platão, com seu espírito investigativo, dissecou cerca de cinqüenta espécies animais iniciando a Anatomia Comparativa. Foi quem primeiro definiu e localizou os vasos sangüíneos e que utilizou a palavra aorta. Nomeou as partes do trato digestório e descreveu as quatro divisões do estômago dos ruminantes. Estudou os envoltórios fetais dos mamíferos e as membranas do embrião das galinhas. Ao descrever as vísceras e dar nomes aos tecidos do corpo (mesmo sem microscópio) acabou relacionando a anatomia macroscópica com a embriologia. Descreveu os ossos cardíacos dos bovinos e listou os animais que possuiam vesícula biliar. Devido aos seus conhecimentos em Biologia é considerado o fundador da Zoologia, dado que se deve a ele a primeira classificação ordenada do reino animal, além de outros trabalhos notáveis, como a "Geração Animal", "Partes dos Animais" e "História dos Animais".

Com a morte de Alexandre e o fim de seu império, o centro de estudos de Estágira, na Grécia se desloca para Alexandria, no Egito. Com a difusão dos ensinamentos de Platão e Aristóteles, as superstições e tabus quanto a dissecação de cadáveres humanos tem fim, possibilitando avanços no estudo da Anatomia. Firmava-se a Escola de Alexandria, onde governantes como Ptolomeu Sóter, Filadelfo e Energete permitiam e incentivavam os Médicos a dissecar cadáveres.

Ainda em Alexandria, Herófilo (290 a.C.), dissecou e descreveu algumas partes do corpo humano como o plexo coróide, sete pares de nervos cranianos e fez distinção entre nervos sensitivos e motores, o globo ocular (nomeando a retina e a íris), nomeou o duodeno, descreveu a glândula vesicular e os ovários além de estabelecer as funções dos testículos.

Ainda em Alexandria, Erasístrato (270 a.C.) e contemporâneo de Herófilo, estudou o encéfalo e estabeleceu as diferenças entre o cerebelo e o cérebro, alertando para a maior complexidade de ambos no ser humano quando comparado aos animais não humanos. Evidenciou a cisterna do quilo e os vasos quilíferos além das valvas tricúspide e sigmóide.

Com a expansão do Império Romano por volta do século II de nossa era, houve maior exaltação a atitudes supersticiosas em detrimento da ciência, sendo abolida novamente a prática de dissecação de cadáveres humanos. A prática da dissecação volta ser realizada em animais.

No século I, Celco, seguidor da Escola de Alexandria, escreveu a coleção "De Medicina", em oito volumes. Pesquisou as relações da traquéia, dos pulmões e do esôfago, bem como a forma, a localização e as relações do diafragma. Seus relatos, no entanto, basearam-se nos achados de Herófilo e Erasístrato devido a proibição de dissecação de cadáveres humanos em sua época.

No Império de Trajano, em Éfeso, Rufus (séculos I a II d.C.) compilou as anotações anatômicas de seus antecessores e comparando-as as suas próprias observações em animais escreve o "Sobre os Nomes das Partes do corpo", sendo a primeira "nomina anatomica" da historia.

Um dos mais ilustres Anatomistas da antiguidade, Galeno (130 a 201 d.C.), nascido em Pérgano, capital da província romana da Ásia (hoje pertencente a Turquia), transferiu-se para Roma, já como Médico, acabou tornando-se Médico pessoal dos imperadores Marco Aurélio e Sétimo Severo. Estudou e descreveu vários aspéctos anatômicos do ser humano a partir de animais, notadamente de macacos, além de suínos, caprinos e bovinos o que o levou a cometer erros. Apesar disso seus conhecimentos foram aceitos até 1400 anos após. Seus estudos dos músculos e da Osteologia é o que mais se aproxima, entre o de todos os estudiosos de sua época, aos conhecimentos atuais. Estudou, distinguiu e nomeou os ossos do crânio, descreveu, numerou e classificou as vértebras em cervicais, dorsais, lombares e diferenciou cóccix e sacro. Derrubou a idéia de que havia ar nas artérias. Criou o dogma (equivocado) de que o cérebro é a origem dos nervos sensitivos e a medula espinhal a dos nervos motores. Descobriu a veia magna cerebral e os órgãos torácicos e abdominais.

Autores como Cato e Columella (ver adiante) produziram interessantes observações sobre a história natural das doenças animais. Numerosos são, os testemunhos das culturas mediterrâneas, sejam elas de raíz árabe, grega ou latina, que chegaram até nós, abrangendo problemas de sanidade animal e deixando marcas profundas da sua passagem. Mais do que em outra parte do mundo, foi ao longo das orlas do Mediterrâneo - berço do logos – que floresceu a arte de curar animais.

Na realidade, muitos foram os homens das letras greco-latinas que manifestaram interesse pela Patologia Animal. Homero na "Odisseia" e na "Ilídia"; Virgílio nas "Geórgicas", ao observarem a flora, não deixaram de estudar a fauna; Plínio "O Antigo" (23 a 79 d.C.) em "Historia Naturalis"; Varrão (116 a 127 a.C.) em "Rerum Doctissimus Rusticarum"; e o hispânico Lúcio Junio Moderato Columela, em "De Re Rustica, Libri XII", onde pela primeira vez se registam os termos de "Veterinaria Medicina" e de "Veterinarius".

Ainda sobre os "Hippiatras" é importante sublinhar que, as suas lucubrações denotavam originalidade, ao passo que outros dos seus contemporâneos dedicados à Agronomia, os "Geoponicos" (de "geo", terra e "ponos", trabalho) – embora nos tivessem deixado igualmente valiosos escritos sobre a Medicina Animal (e naturalmente sobre agricultura), no fundo, não foram mais que hábeis compiladores das conclusões dos "Hippiatras". Entre os Celtas, eram os saronídeos druidas que se ocupavam do ensino e, cumulativamente, do exercício da arte médico-veterinária.

A partir da Hipologia, começa a aumentar o interesse por outras espécies e surgem os especialistas: o "Medicus Pecuarius" (Médico do Gado), "Mulumedicus" ou "Equorum Medicus" (o Médico Militar integrado nas unidades montadas de escol das legiões romanas), etc. É de referir também que os gregos, mais atraídos pelos cavalos, lhes consagrassem de ordinário, os escritos, ao passo que os romanos, mais seduzidos pelo campo, se ocupassem, de preferência, dos assuntos ligados ao problema do melhoramento animal ou seja, da Zootecnia.

Tal panorama se altera com a desagregação do Império Romano. Tem início um penoso processo de decadência, tanto da Medicina Humana como da Medicina Animal, ainda que antes da queda de Constantinopla (cabeça do império bizantino), por volta do ano 300 da era Cristã, se registre um certo movimento renovador, mormente com Theomnesta e Aspirtos de quem herdamos uma grande coleção de escritos, mais tarde reunidos aos registos dos "Hippiatras" para formar a "Hippiatrika" (ver a diante). São igualmente da mesma época, e inseridos no mesmo espírito de reação, as obras de Pelargonios (400 d.C.) e Publius Vegetius (450 a 500 d.C.) em "Artis Veterinariae Sive Digestorum Mulomedicinae", obra em seis volumes publicada no século XIX e de singular influência durante toda a Idade Média.

Com o início da Idade Média, assinalada pela conquista de Constantinopla em 1453 pelos turcos, tudo se altera. O esplendor atingido pelas artes médicas fenece tanto pelo fluir do processo desenvolvimentalista que se torna subjacente às ideias religiosas e sociais prevalescentes, mas também por força da instabilidade política decorrente das lutas contínuas em que se empenham os senhores da guerra. Para a cristandade do tempo, era de certo modo tabú curar os corpos. Antes havia de tratar das almas. O homem deveria afastar-se do amor terreno à vida para a satisfação das exigências da fé. O padecimento era exaltado, considerando-se como sagrada a doença. O que verdadeiramente importava era alcançar a salvação da alma. Pensando sem cessar na morte, que põe fim a todos os sofrimentos e aos bens terrestres que vincam as diferenças de hierarquia, amar-se a si e ao corpo era uma forma de idolatria. Só através do ascetismo e da exclusão dos prazeres sensoriais se podia devolver à alma a sua primitiva pureza. Tal colapso espiritual só viria a parar com o a Renascença. É nesta época ainda que ocorre o surgimento do abismo entre as Medicinas Humana e Veterinária, pois a Igreja não reconhecia a existência da alma nos animais, o cristianismo propagava um certo desprezo pelos animais (não correspondido por aqueles cristãos que deles dependiam e por muitos que os tinham como companheiros de labuta).

Os pensadores Thomas More (1428-1535) e Francis Bacon (1521-1626) propuseram uma divisão estreita entre os animais e o homem. Bacon defendia a tese de que "o homem, se nós considerarmos as causas finais, deve ser considerado o centro do mundo, tanto é que se o homem fosse removido do mundo, o restante apareceria perdido, sem objetivo ou propósito”. Este antropocentrismo da Idade Média foi consagrado por René Descartes (1556-1650), ao afirmar que os animais eram insensíveis aos estímulos externos, não respondendo à dor. Tanto se fez, que os “observadores” desta época promoviam cirurgias em animais para observarem estruturas anatômicas e funcionais “in vivo”, sem uso de anestésicos.

Foi com Jeremy Bentham (1748-1832) que surge a teoria de que todas as criaturas que eram capazes de “sofrer” deveriam ser inclusas em considerações morais e protegidas por lei. Dizia ele que “a questão não é se eles raciocinam? Se eles falam? Porém eles sofrem?” Schopenhauer (1778-1860), definindo a piedade como base moral da ética, os animais, tendo características semelhantes aos humanos, também poderiam sofrer. E, no final do século XIX para o início do XX, Albert Schweizer (1875-1965) postula a ética passando a ter um caráter universal, em que a vida deveria ser respeitada.

Nestas circunstâncias, não surpreende que a investigação científica e o ensino médico se retraiam e sejam relegados para segundo plano nas listas das preocupações medievais, cedendo terreno à superstição. Seria nos conventos, cujo principal objetivo era o culto da caridade, que havia um hospício, onde frades ledores e plumitivos entesouravam e ampliavam o acervo dos conhecimentos médicos. Célebres sob este aspécto foram algumas das instituições monásticas, como as circundantes do lago de Constança, as abadias de Salerno e de Montecasino, na Itália. Lá se praticou de modo constante as ciências médicas, nas suas faces humana e veterinária (nesta também com toda uma sorte de gente que vai de santa Estugarda aos alquimistas ou pré-alquimistas).

Mais tarde a Medicina e a Medicina Animal voltam a se unir durante a ocupação árabe (pois o Alcorão declara impura a pessoa que toca em cadáver) e o ensino médico transfera seus arraiais para terras de mouros e vêm a ser os árabes – que nutriam pelo cavalo paixão igual à que dispensavam à mulher – os grandes beneficiários da fuga dos cérebros, ao abrirem os braços à imigração de práticos e teóricos das artes médicas e criando nas terras infiéis, designadamente em Sevilha, Córdova e Granada (no calificado do Oriente os estudos gerais encontravam-se vocacionados mais para o campo das Letras e da Matemática) escolas orientadas no sentido do progresso das Ciências Médicas, particularmente das médico-veterinárias e, em especial da Hipiatria. Deste modo foram os árabes os grandes continuadores do pensamento greco-latino ao traduzirem as melhores peças culturais da orla mediterrânea, como as de Aristóteles, Hipócrates, Galeno ou Platão.

Assim é no seio das faculdades dos califados hispânicos que se manteve aceso o facho. O “Livro de Kabour”, do século XI d.C., é uma verdadeira enciclopédia, pois, destinado à educação dos príncipes, englobava conhecimentos da época: políticos, administrativos, militares, comerciais, literários, científicos e médicos. O capítulo XXV é destinado ao cavalo, contendo a hipologia básica dos antigos gregos. Ibn Iussef escreve um extenso tratado sobre a Medicina Animal, aliás não totalmente original, dado que compila trabalhos já conhecidos. Já o sevilhano Abu Zacarias Ahmed ou Ibn-al-Awam, no século XII escreve "Kirab-Al-Felanah", com 34 capítulos, no qual nada menos de quatro deles são consagrados, quer à educação e criação do cavalo quer à sua higiene e terapêutica, além da bovina, ovina e dos camelos. O autor fez uma obra sintética através da escolha seletiva de documentos gregos, persas e hindus. Descreve a criação, utilização racional, alimentação, manejo e principais doenças dos animais. Esta obra, que na versão hispânica toma o nome de "El Libro de la Agricultura", descreve detalhadamente a vida agrária da Península no tempo dos Almohadas, antes da invasão dos Beni Merines, vindos do Norte de África e provavelmente introdutores na Ibéria dos ovinos de raça merina. A terapêutica é original pelo número e variedades dos documentos citados. Relaciona um manual operatório, que trata das sangrias, cauterizações, suturas, punções e catarata, bem como o caráter contagioso do mormo, da durina e do carbúnculo hemático.

As reflexões dos "Hippiatras" (cerca de 420 artigos, sendo 121 escritos desde o século IV por "Hippiatras" gregos, bizantinos e árabes inclusive pelo grego Apsirtos encontradas no século VI viriam a ser reunidas no século X por Constantino VII Porfirogentus, em Bizâncio (atual Istambul) na obra "Hippiatrika" (esta obra foi traduzida do árabe para o latim apenas na Renascença e impressa somente em 1530 por Pedro Hispano - ver adiante).

Não obstante, no campo cristão, paralelamente ao labor das instituições monásticas, regista-se eclosão de um fermento de rebeldia contra o marasmo em que haviam tombado os estudos médicos. Particularmente na Sicília, no século XIII, durante os reinados de Rogério II e do imperador Frederico II, Imperador do Sacro Império Romano e Rei da Sicília e Jerusalém (conhecido por "sultão cristão da Europa", apaixonado zoológo e criador de falcões de caça). Frederico II chegou a escrever um livro sobre falcões onde contestava Aristóteles em sua homologia entre os ossos das asas e das pernas. Promulgou uma lei proibindo o exercício da Medicina a quem não houvesse estudado e dissecado um certo número de cadáveres. Por causa disso sofreu duas excomunhões por parte da Igreja. É neste período que o magistrado, Médico de Animais e principal conselheiro de Frederico II, Jordanus Ruffus escreve o "Livro de Marescálcia", publicado em 1250 e que rapidamente se torna um clássico, servindo de arrimo a muitos tratadistas, inclusive a Mestre Geraldo, Físico-mor da corte de D. Dinis. É neste período que surge a coletânea científico-naturalista conhecida pelo nome de "Physiologie Bestiari".

No próprio seio da igreja, São Tomás de Aquino, o doutor Angélico (1225-1274), que considerava crueldade os atos criminosos impressos contra os animais (como também São Crisóstomo (347-407 d.C.) e São Francisco de Assis (1181-1226), que cobravam a obrigação do homem para com os animais), procura harmonizar a fé com a razão, de um lado, e a Filosofia com a Teologia, do outro, num sistema coerente que integra a filosofia aristotélica e platónica no dogma cristão, dando origem a uma forma nova e clara de investigação no sentido de encontrar solução para os problemas de ordem científica, consubstanciados no complexo movimento ideológico designado de Escolástica, que surge com características de ciência exata e objetiva, a estabelecer íntima e subjetiva relação entre Deus, o homem e a natureza, trazendo de novo à ribalta as referidas correntes filosóficas, recolhendo do Estagirista o espírito intuitivo, acrescentado por Santo Agostinho, e de Platão, além do entendimento ordenado e sistemático, a concepção racional e panteísta do Universo. Para tal, com o contributo de Santo Agostinho, foi mister cristanizar e batizar a ambas as correntes, o mesmo sucedendo em relação às teorias de Plínio e de Galeno, igualmente absorvidas pelo movimento escolástico.

Tomás, nasceu em Aquino, na Itália, não longe de abadia de Montecasino, onde mais tarde viria a lecionar, revelando excepcional talento, cujo rasto atravessa toda a Idade Média e se prolonga pela Renascença até à Idade Moderna, convindo lembrar que o ideário de Aristóteles é assimilado por um professor do Aquinense nas universidades de Paris e de Colonia, o Bispo Albert Von Bollstacat, posteriormente canonizado de santo: Alberto o Grande ou Alberto o Magno, também ele dominicano e escolástico, a quem entre outras obras se deve a conhecida "De animalibus", boa parte da qual consagrada à Medicina Veterinária.

Com a Escolástica, servindo de catapulta, a arte médica vai progredindo. As práticas alicerçadas no empirismo ou nas crendices do imaginário popular são progressivamente desencorajadas, ao contrário do que sucedia com o falanstério dos homens de saber, um pouco ao sabor da opinião de Rhaz, Médico árabe, que proclamava ser mais útil ler um livro (de Medicina) que tratar cem enfermos. Assim, Juan Alvarez Salamiella, escreve no século XIII, um importante tratado, por sinal ilustrado, sobre a cirurgia do cavalo: "Livro da Marescálcia et Albeitaria et Fisica de las Bestias", enquanto Laurentius Russius, ou Lorenzo Russio (1288 a 1347), chefe das cavalariças de Napoleone Orsini (1283 a 1347), cardeal napolitano, publica em 1340 a "Hippiatria sive Marescalia", através da qual aborda tanto a Higiene como a Patologia do cavalo em diversas línguas, neste caso sob o aportuguesado nome de Lourenço de Ruzião.

Prática de sangria na tábua do pescoço do “Livro de Marescálcia” de Álvarez Salamiella
Prática de sangria na tábua do pescoço do “Livro de Marescálcia” de Álvarez Salamiella.

No final do século XVI, mais precisamente em 1598, o senador bolonhês Carlo Ruini (1530 a 1598) escreve "A Anatomia do Cavalo" que é reconhecido pela maioria dos historiadores da Medicina Veterinária, como o primeiro autor a descrever uma anatomia inteligível do cavalo. O livro reproduzido em diversos idiomas é primorosamente ilustrado por isso pensou-se tratar de obra póstuma de Leonardo da Vinci. No entanto, como rico Advogado e Senador de Bolonha, supõe-se que este escritor tenha contratado o trabalho de um Anatomista e de um Desenhista desconhecidos, enquanto ele apenas escrevia o texto. Daí ter cometido alguns erros, como por exemplo considerar o primeiro par de costelas do cavalo como sendo sua clavícula, entre vários outros erros.

Passando à Espanha, em 1564, o Albeitar zamorense Francisco de La Reyna, a quem se atribui a descoberta do sistema da circulação sanguínea, aparece com o seu "Livro de Albeytaria" (a descoberta de La Reyna é portanto, muito anterior à do Fisiologista inglês William Harvey, publicado, em 1628 como "Exercitatio Anatomica De Motu Cordis et Sanguinis in Animalibus", onde é proficientemente retratada toda a mecânica circulatória).

Na França surge por volta de 1565, o "Praedium Rusticam" de autoria de C. Estienne, onde se reproduzem não só escritos de Vegécio como também alguns capítulos de "Thesaurus Pauperum", obra atribuída a Pedro Hispano, mais tarde eleito papa com o nome de João XXI. Também conhecido por Petrus Hispanius Portugalensis ou Pedro Julião, nasceu em Lisboa, tendo sido nomeado arcebispo de Braga em 1273 e eleito cardeal no ano seguinte. Deixou publicados grande variedade de trabalhos, versando, naturalmente por ser Médico, temas da especialidade. Entre os quais se destaca "Summulae Logicales", vulgata de lógica aristotélica, bem como a tradução de clássicos, árabes ou cristãos. O seu último trabalho teria sido um comentário à "História dos Animais", de Aristóteles, anterior, portanto, à obra de Alberto Magno "De Animalibus". De Pedro Hispano conhece-se ainda, no âmbito da Medicina Veterinária, a "Hippiatrika", impressa em latim e publicada em 1530 com patrocínio de Francisco I da França. Finalmente, próximo à publicação do livro de Estienne, em 1556, vem a público "Il Trattato dei Cavalli", de Cesare Fraschi, de Ferrara, na Itália, que viria a ter grande aceitação tanto na França como na Áustria.

Em 1683, Andrew Snape Junior, Médico de Animais da corte do Rei Charles II, escreveu "A Anatomia de Um Cavalo", um dos mais notáveis trabalhos em inglês daquela época.

No século XVII, na Holanda, Gerard Blaes (1625 a 1692) descreve a siringe das aves, a bolsa ovárica e publicou o primeiro tratado sobre Anatomia canina. Regnier de Graaf (1641 a 1673) notabilizou-se pelos estudos dos órgãos genitais, descrevendo os folículos ovarianos e sendo o primeiro a afirmar que o ovo passa através da tuba uterina. Demonstrou pela primeira vez os túbulos seminíferos ao trabalhar com testículos de ratos.

Abra-se de novo um parêntesis para registar que a outro não Médico, Aulo Cornélio Celso, se deve igualmente uma obra de conjunto que, publicada sobre os auspícios do papa Nicolau V, sob o título de "De Res Medica", passou aos anais da Medicina. Foi um notável enciclopedista e experimentado cirurgião. É lembrado pelos sinais identificadores dos processos inflamatórios ("tumor, calor, rubor et dolor") que têm o seu nome.

Posteriormente, é a vez de João Garcia Cadet e Diamantino Ros, publicarem o resultado das suas observações, tendo o último, em princípios do século XVIII (entre 1728 e 1730), dado conta de um método de transfusão sanguínea e de inoculação endovenosa antes do equivalente processo ter livre prática na Medicina Humana.

Ao contrário de países vizinhos como Inglaterra e Alemanha, por exemplo, em que os profissionais práticos não raramente denotavam a mais profunda ignorância dos porquês das coisas, no país vizinho o panorama era diferente. Na Espanha, durante o reinado de Afonso V de Aragão, foram estabelecidos os princípios fundamentais de uma Medicina Animal racional, culminado com a criação, pelos Reis católicos Fernando (1452-1516) e Isabel (1451-1504), de um Tribunal de Protoalveytarato, um gremio laboral inspirado na organização dos mestres medievais (germe de futuros sindicatos) onde passam a ser examinados, por júri qualificado, os candidatos ao cargo de "Albeitar" (do árabe: "al-beitar"), facultativo e aprovados somente aqueles que se revelassem cabalmente aptos a bem exercer a profissão, a qual poderia ser fiscalizada por parte do tribunal, que por outro lado tinha por dever dispensar aos formandos o possível amparo e proteção. A denominação "Albeitar" deriva do mais famoso Médico de Animais espanhol, cujo nome de origem árabe era Eb-Ebb-Beithar ou como citam outros autores, Ibne Albeitar, autor do "Livro dos Simplices".

Em língua portuguesa, o termo foi traduzido para "Alveitar", sendo usado em 1810 para designar os Veterinários práticos da Cavalaria Militar do Brasil Colônia (não confundir com Médicos Veterinários graduados).

Na Europa, antes da criação das primeiras escolas de Medicina Veterinária, aqueles que exerciam a empírica Medicina Animal eram denominados de "Maréchal-Ferrand" ou apenas "Maréchal", "Maréchal das Écuries" (ou seja o que tem a cargo os cavalos do príncipe) e "Maréchal des Logis" (um sub-oficial de cavalaria, artilharia) em países de língua latina (de onde "marc’h"=cavalo e "skalk"=servidor), "Écuyer" e "Sergent-Fourrier" na França, "Rossarzt" ou "Stallmeister" na Áustria e Alemanha, "Marescalci" ou "Marechalcho" na Itália ("Medicus Pecuarius", "Mulumedicus", "Equorum Medicus" em Roma), "Ferriers", "Cow Beches" ou "Shepherds" na Inglaterra, etc.

Na grécia em algumas cidades eram reservados cargos públicos para os que praticavam a cura dos animais e que eram chamados de "Hippiatra". Mas é entre os romanos que surge pela primeira vez a expressão: "Medicus Veterinárius". A etimologia mais simples e mais provável para a palavra "Veterinarius" vem do adjetivo "veterina" (jumento) ou "veterinus" (animal de carga ou tiro), que derivam do termo "vehere" que por sua vez deriva de "vehe"=veículo. Referem-se aos "bestia veterina" ou "animalia veterina" ou "animal de carga". Portanto "Veterinarius" designava todas as pessoas que se ocupavam dos "veterina". Outros autores atribuem sua origem ao étimo latino "veteranus" ("vetus"=velho). Nas tribos primitivas, os cuidados médicos eram ministrados pelos feiticeiros, pastores ou sacerdotes, os quais, geralmente, eram os mais velhos do grupo. Outros ainda observam sua origem em "vetus-veteris", a mesma origem da palavra vetusto. É de Columela a autoria do termo "Veterinarius" e "Veterinaria Medicina".

Na França, como na Itália ou Grã-Bretanha, são as "ecuries", ou sejam as coudelarias (a exemplo do que viria a acontecer em Portugal e em Espanha com as escolas de toureiro equestre) que formam o berço das futuras academias, nas quais aos preceitos pedagógicos de ordem prática se acrescentam progressivamente as regras e os conceitos de índole teórica, surgindo nomes que passaram à história, como Pignatelli Grisone e Carraciola na academia da Escola de Cavalaria de Nápoles. Na França Garsault, Pluvinel e outros como Lafosse (filho de outro grande Hipiatra do mesmo nome que teve assento na Academia Francesa) e Gaspar de Solleysel (autor do "Parfait Maréchal"); na Inglaterra: James Douglas, William Cavendish, William Gibson e James Clark, autores, respectivamente da "Miografia do Homem e do Cão", "Tratado de Equitação" e do "Novo Tratado das Doenças do Cavalo"; na Alemanha a família Ostertag que representa uma dinastia de Médicos Veterinários, bem representada sobretudo, no domínio da Helmintologia.

Entretanto, os Lafosse (pai e o filho), vinham preconizando, e defendendo com paixão, o ensino em nível universitário da Medicina Veterinária e a própria Academia de Medicina Francesa seria a primeira a sugerir que devia ser integrada no plano de estudos da faculdade. A ideia foi aceita, embora acabasse por não vingar. O mesmo, de resto, aconteceu com Sousa Martins, laureado vulto da Medicina portuguesa, a advogar no sentido de se incluir o ensino de Medicina Veterinária no rol de disciplinas da escola de Lisboa.

Todavia, não foram tão-somente as academias a manter chama acesa: também o largo acervo de eminentes naturalistas que povoam os anais do século XVIII - como Buffon, Leibnitz, Leewenhock, Lineu, Geoffroy Saint-Hilaire, Darwin e tantos outros - contribuiu significativamente para o progresso da Zootecnia. Por outro lado, paralelamente ao academismo experimental e descritivo, surgem os criadores de gado, homens práticos sem outra ferramenta para além de uma notável intuição. É a chamada época dos criadores ingleses, os quais com muito esforço e trabalho lograram obter ao longo do século, resultados superiores aos alcançados pela ciência especulativa, especialmente entre os ovinos e bovinos e ainda no quadro dos produtos alimentícios de origem animal.

As escolas de equitação, mantidas pelos grandes capitães, nobres e prelados com o fim de assegurarem montadas para as suas viagens, festas, paradas e cavalhadas, existiam por toda a parte. Todavia os grupos de alta equitação confinavam-se às grandes cidades ou capitais, como Viena, Berlim, Hannover, Mecklemburgo, Munique, Copenhagen, Estocolmo, Vila de Este, na Itália e Alter-do-Chão, em Portugal, tendo esta sido então considerada uma das melhores do mundo.

Claude Bourgelat foi o personagem principal do início das atividades médico-veterinárias no mundo, segundo critérios científicos. Nascido no ano de 1712 em Lyon, sul da França, em uma família aristocrática (cujos ancestrais tinham exercido importantes funções na sociedade lionesa), graduou-se em Direito pela Universidade de Toulouse tendo desistindo da carreira e engajado na agremiação dos Mosqueteiros. Em 1740, aos 28 anos de idade, o Conde d'Armagnac, Grande Escudeiro da França, lhe outorga o título de Escudeiro do Rei e a direção da Academia de Equitação de Lyon, onde os jovens nobres aprendiam a Equitação, Esgrima, Matemática, Música e boas maneiras. Foi equitador da Academia Eqüestre de Lyon durante 25 anos. Publicou anonimamente em 1744 um livro entitulado "Nouveau Newcastle" ou "Nouveau Traité de Cavalerie", onde atualizou os pensamentos de Newcastle (apresentava uma nova abordagem sobre a arte eqüestre, obtendo grande sucesso e notoriedade). Em 1750 Bourgelat publicou o livro "Elementos de Hipiatria" pelo qual foi nomeado correspondente da Academia de Ciências de Paris e de Berlim. Mas as suas atividades no mundo médico-veterinário foram mais marcantes do que na equitação. Estudou todas as obras antigas sobre manejo e anatomia animal, sobretudo as que tratavam do cavalo.

Denis Diderot (1713-1784) e Jean d'Alembert (1717-1783),editores da "Enciclopédia Francesa", solicitam sua colaboração para escrever os verbetes ou assuntos relativos a "Arte Eqüestre, Arte de Ferrar Eqüinos e Artes Relativas". Após ter corrigido os escritos de autores precedentes, Bourgelat assina em 1755 o primeiro dos mais de duzentos artigos para a Enciclopédia. Através de sua obra conhece e obtém o apoio de Voltaire (1694-1778) e Malesherbes (1721-1794). Seu primeiro projeto em criar uma escola veterinária fracassa, por falta de apoio das autoridades municipais de Lyon. Em 1754 conhece Henri-Léonard Bertin, nomeado Intendente da "Généralité de Lyon" com o qual estabelece profunda amizade. Em 1757 Bertin assume o cargo de "Lieutenant Général de la Police à Paris" e Bourgelat é promovido a "Inspecteur des Haras de la Généralité de Lyon". Em 1759, Bertin assume a função de "Contrôleur Général des Finances" do Rei Luiz XV e no ano seguinte, Claude Bourgelat assume o posto de "Censeur et Inspecteur de la Librarie de Lyon". Em 1761, o governo de Luiz XV adota a política de lutar contra as doenças do gado, a proteção das pastagens e ensino rural. Henri Bertin torna-se o promotor do movimento de reforma agrária idealizado pelo Rei, propondo a criação de uma escola veterinária o que culminou com a assinatura do Édito Real pelo rei Luiz XV, em 04 de agosto de 1761, que autorizava a criação de uma escola médico-veterinária onde "se ensinará publicamente os princípios e os métodos de tratar as doenças dos animais", que seria a primeira a entrar em funcionamento no mundo.


Claude Bourgelat
Claude Bourgelat

A escola iniciou suas atividades com 8 alunos em 19 de fevereiro de 1762 como a primeira escola para doenças dos animais domésticos, da qual foi diretor. Dois anos mais tarde a escola se transformou na École Royale Vétérinaire (sendo posteriormente mudada de logradouro e denominada École Nationale Vétérinaire de Lyon). Suas antigas dependências abrigam hoje o Conservatório Nacional de Música. Sendo um homem severo e autoritário não deixou boas lembranças junto aos companheiros humanos rodeando-se de Médicos e Cirurgiões competentes no intuito de excluir o empirismo, decisão que, aliás, levou ao afastamento de Lafosse do cargo a docente da novel faculdade. Entretanto, teve tanta importância no desenvolvimento da Medicina Veterinária que, em 1765, foi nomeado "Diretor Geral de todas as escolas veterinárias existentes, e a serem fundadas, no reino da França". Escreveu vários livros veterinários entre eles “Traité de la Conformation Exterieure du Cheval” em 1768, regulamentos escolares, Anatomia e Farmacopéia. Foi o inventor do hipômetro, um instrumento para medir as proporções do cavalo. É digno de nota para os leitores modernos que o sucesso veterinário de Bourgelat se deve também ao fato de ter sido um "Ecuyer".

Em 1777, Claude Bourgelat idealiza e redige os "Réglements Pour Les Écoles Vétérinaires de France", resultado de sua longa experiência como administrador das duas escolas de Medicina Veterinária então existentes. Para ele a boa moral dos alunos representava uma prioridade, pois desejava formar homens íntegros e cultos. Tais preocupações podem ser lidas no artigo 19, revelando algo que muito se parece com um juramento:

"Sempre imbuídos dos princípios de honestidade que receberão através dos exemplos nas Escolas (Lyon e Paris) jamais se desviarão; saberão distinguir o pobre do rico; reconhecerão a beneficência do Rei e a generosidade da pátria em instruí-los. Enfim, provarão pela sua conduta que todos estão igualmente convencidos que a riqueza consiste menos nos bens que se tem do que naqueles que se pode obter."

As epizootias que, em crescimento, dizimavam os rebanhos um pouco por toda a parte e assim assiste-se à abertura de novas escolas de Medicina Veterinária, a segunda em Alfort (Paris) criadas por Bourgelat e Bertin e sob orientação de Bourgelat, em 1765,iniciando seu funcionamento em outubro de 1766. A seguir em Toulouse.

Claude Bourgelat faleceu em Paris no dia 3 de janeiro de 1779, aos 67 anos de idade como o pai da Medicina Veterinária científica e Patrono da Medicina Veterinária Mundial.

A partir da compreensão crescente da relevância social, econômica e política da nova profissão, outras escolas foram criadas em diversos países, a exemplo de Viena, na Áustria, em (1768); em Turim, na Itália, em (1769); em Copenhage, na Dinamarca, em (1773); em Skara, na Suécia, em (1775); em Hannover, na Alemanha, em (1778); em Budapeste, na Hungria, em (1781); em Londres, na Inglaterra, em (1791); em Madri, na Espanha, em (1792); alcançando, no final do século XVIII, 19 escolas, das quais 17 ainda estão em funcionamento.

Esse crescimento possibilitou o aparecimento, no campo da investigação científica, de nomes, como os de Bounley, pai e filho (ambos Médicos Veterinários e ambos presidentes da Academia Francesa de Medicina), Bartelemy, Toussault e tantos outros como Cheveau, Anatomista eminente, além de destacado Bacteriologista e Imunologista; Carré, o homem dos vírus filtráveis; Ramon, largos anos à frente do Instituto Pasteur de Paris, ou ainda, o inglês Mac Fadden ou o austríaco Merck.

A primeira escola de Medicina Veterinária do mundo também diplomou a primeira Médica Veterinária em 1897, porém era de nacionalidade russa. A segunda Médica Veterinária diplomou-se em 1934 e esta sim era francesa. Nos EUA, a primeira Médica Veterinária formou-se em 1903 no McKillis Veterinary College. Em 1910, era diplomada a segunda Médica Veterinária norte americana pela Chicago Veterinary College.

As primeiras clínicas veterinárias para pequenos animais surgem na metade do século XIX em algumas capitais européias (especialmente Londres e Paris) ocasião em que inicia-se a Era Industrial e considerável melhora da sociedade burguesa emergente e aumento da criação doméstica de cães e gatos. Na ocasião muitas instituições de ensino médico-veterinários passaram a incluir em suas grades a disciplina de Clínica Médica e Cirúrgica de Cães e Gatos assim como ambulatórios e hospitais para seu atendimento.