História da Medicina Veterinária

Fonte: Informações retiradas so site do Conselho Federal de Medicina Veterinária-CFMV. Novas informações introduzidas por Marcell Hideki Koshiyama.
 

No Brasil

Com a chegada da família real ao Brasil, em 1808, nossa cultura científica e literária recebeu novo alento, pois até então não havia bibliotecas, imprensa e ensino superior no Brasil Colônia. São fundadas, inicialmente, as Faculdades de Medicina (1815), Direito (1827) e a de Engenharia Politécnica (1874). Dom João VI, por Decreto-Lei mandou criar no 1º Regimento de Cavalaria do Exército, um curso de "Alveitaria", nomeando como coordenador dos ensinamentos, o "Artista Veterinário" (Artis Veterinaire) João Baptista Moncuet. Em 1810, o Conde Linhares, Ministro do Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra criava o cargo de Veterinário naquele Regimento.

Quanto ao ensino das Ciências Agrárias, seu interesse só foi despertado quando o Imperador D. Pedro II, ao viajar para França, em 1875, visitou a École Vétérinaire D'Alfort, impressionou-se com uma conferência ministrada pelo Médico Veterinário e Fisiologista, Dr. Collin. Ao regressar ao Brasil, tentou propiciar condições para a criação de entidade semelhante no país. Até a tentativa do Professor Azevedo Sodré, apresentada pelo deputado Gastão Cunha, todas as iniciativas de implantar o ensino médico-veterinário no Brasil fracassaram, inexplicavelmente.

Mais uma tentativa parecia estar fadada a falhar, desta vez no Exército, comandada pelo Coronel Dr. Marcolino Souza, que compreendia a importância e a necessidade do Exército ter um núcleo formador de profissionais de seu quadro, considerando que "a veterinária, ali como existia, era como se não existisse" (Coronel Cerqueira Alves). Com um grupo de outros oficias chegou a preparar planos de ensino, programa de disciplinas, se fez e nada se aproveitou. Surge então a figura do Dr. João Muniz Barreto de Aragão, que compreendeu a importância do trabalho do Coronel Marcolino de Souza e deu continuidade aos seus trabalhos, tomando como objetivo a implantação do ensino da Medicina Veterinária no Brasil.

Então, já sob regime republicano com o Decreto nº 8319 de 20 de outubro de 1910, assinado pelo Presidente Nilo Peçanha. O documento tornava obrigatório o ensino da Medicina Veterinária. Nossas autoridades decretaram a criação das duas primeiras instituições de ensino de Medicina Veterinária no Brasil, sendo a primeira a Escola de Veterinária do Exército, no Rio de Janeiro pelo Decreto nº 2232, de 06 de janeiro de 1910 (inaugurada em 17 de junho de 1914) onde os primeiros professores foram Médicos Veterinários Militares franceses, selecionados por Emile Roux, do Instituto Pasteur de Paris. A segunda escola foi a Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária do Rio de Janeiro (hoje Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ), através do Decreto nº 8919 de 20 de outubro de 1910 (inaugurada em 04 de julho de 1913), no Rio de Janeiro, onde os primeiros professores foram Médicos Veterinários franceses e um belga.

Este professor belga era o Dr. Octave-Jules Dupont, nascido em 4 de maio de 1881 na cidade de Zwevegen e graduado em Medicina Veterinária pela Escola Veterinária de Cureghen e em Medicina e Cirurgia ela Universidade Libre de Bruxelas, Bruxelas, Bélgica, passou toda sua vida profissional no Brasil. Indicado pelo diretor da Escola de Veterinária de Cureghen ao secretário da embaixada brasileira na Bélgica a pedido do Ministro da Agricultura, chega ao Brasil em 9 de setembro de 1912 aos 27 anos de idade. Atuou como Professor de Clínica Médica de Grandes Animais e trabalhou ao lado de Oswaldo Cruz e Vicente Leite Xavier. PEsquisou a salmonelose, anaplasmose, encefalomielites e doenças carenciais em eqüinos. Foi o introdutor da BCG (Bacilo de Calmette e Guérin) no esquema de vacinação contra a tuberculose bovina. Foi o primeiro a identificar um caso de histoplasmose canina no Brasil. Escreveu o livro "O Cavalo de Corrida: Criação, Medicina e Cirurgia Equinas". Foi diretor por muitos anos do Hospital Veterinário do Jockey Clube Brasileiro que hoje leva seu nome (Hospital Veterinário "Octávio Dupont") onde recebeu o título de Sócio Honorário do Jockey Clube Brasileiro e a Medalha de Ouro pelos 50 anos de serviços prestados a instituição. Recebeu o título de Professor Emérito da UFRRJ. Foi agraciado com o diploma de Acadêmico Perpétuo e a Medalha de Carioca Honorário. Na Bélgica recebeu do próprio rei a Comenda Chavalier de l'Ordre de Leopold. Foi eleito patrono da cadeira nº 8 da Academia Brasileira de Medicina Veterinária e nomeia um prémio anual dado ao melhor aluno do curso de Medicina Veterinária da UFRRJ. Seu nome foi dado a uma rua em sua cidade natal e a uma rua na Barra da Tijuca. Faleceu em 1974.

O ensino foi dirigido, inicialmente, de maneira diferente nas duas escolas. A civil foi orientada à produção animal, principalmente dos bovinos. Os animais importados eram atacados pelos carrapatos transmissores da anaplasmose e babesiose, exigindo um exaustivo trabalho de premunição. Mais tarde, houve uma grande orientação para a Clínica de pequenos animais (clínica do grego significa "aquele que permanece ao lado do paciente", expressão criada por Hippocrates) e a Saúde Pública Veterinária, com a campanha contra o mormo, doença que atacava os cavalos e os soldados. A primeira turma da escola civil graduou-se em 1917. Os melhores alunos da Escola de Veterinária do Exército eram enviados para o Instituto Osvaldo Cruz, precursor da pós-graduação formal no Brasil, muitos dos quais transformados posteriormente em destacados cientistas.

A Escola de Veterinária do Exército formou sua primeira turma em 15 de fevereiro de 1917 com 6 alunos. A Escola Superior de Agrucultura e Medicina Veterinária formou sua primeira turma em 03 de julho de 1917, com 4 alunos. A primeira mulher diplomada em Medicina Veterinária no Brasil foi a Dra. Nair Eugenia Lobo, na turma de 1929 pela Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária do Rio de Janeiro.

No estado de São Paulo, a primeira Médica Veterinária (que ocupou a cadeira nº 14 da Academia Brasileira de Medicina Veterinária) foi a Dra. Virginie Buff D'Apice, grauada em 1930 pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo tendo sido professora e diretora técnica da Biblioteca da FMVZ-USP de 1935 a 1958. Elaborou o primeiro projeto do Código de Deontologia e Ética Profissional, apresentado no V Congresso Brasileiro de Medicina Veterinária na cidade de São Paulo em 1950. Foi também fundadora e primeira presidente da "International Women Auxiliary to the Veterinary Profession" e da "Associação Brasileira das Senhoras dos Médicos Veterinários". Faleceu na cidade São Paulo, no ano de 1984.

A primeira Médica Veterinária graduada no Paraná e ainda em atividade (ano de referência 2005) e titular fundadora e ocupante da cadeira nº 9 da Academia Paranaense de Medicina Veterinária (fundada em 26 de abril de 1999) é a Dra. Ingeborg Dorothéa Wiedner Cacciatori Marenzzi, graduada pela Escola Superior de Agricultura e Veterinária (atual curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Paraná) em 1952. Recebeu a Medalha de Honra ao Mérito "Professor Arlindo Loyola de Camargo" por estar em primeiro lugar na classificação das notas obtidas durante todo o período universitário. Após formar-se, montou um consultório veterinário na cidade de Curitiba, atualmente Clínica Veterinária Pasteur. No Rio Grande do Sul, a primeira Médica Veterinária formada é a Dra. Elinor Fortes, graduada pela Escola de Agronomia e Veterinária (atual Faculdade de Veterinária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul), em Porto Alegre no ano de 1951. Além de membor da Academia Rio-Grandense de Medicina Veterinária, é uma das poucas mulheres agraciadas com o Prêmio Paulo Dacorso Filho, concedido pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária anualmente a um único profissional de notório saber. Especializou-se em Parasitologia.

Em 1911, em Olinda, Pernambuco, a Congregação Beneditina Brasileira do Mosteiro de São Bento, através do Abade D. Pedro Roeser, sugere a criação de uma instituição destinada ao ensino das Ciências Agrárias, ou seja, Agronomia e Medicina Veterinária. As escolas teriam como padrão de ensino, as clássicas escolas agrícolas da Alemanha, as "Landwirschaf Hochschule". Esta viria a ser a terceira escola de Medicina Veterinária do Brasil.

É fundada em 03 de novembro de 1912 a Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária de Olinda e no dia 1 de julho de 1914, eram inaugurados, oficialmente, os curso de Agronomia e Medicina Veterinária. Todavia, por ocasião da realização da terceira sessão da Congregação, em 15 de dezembro de 1913, ou seja antes da abertura oficial do curso de Medicina Veterinária, um Farmacêutico formado pela Faculdade de Medicina e Farmácia da Bahia solicitava matrícula no curso de Medicina Veterinária, na condição de portador de outro diploma de curso superior. A Congregação, acatando a solicitação do postulante, além de aceitar dispensa das matérias já cursadas indica um professor particular, para lhe transmitir os conhecimentos necessários para a obtenção do diploma antes dos quatro anos regimentares. Assim, no dia 13 de novembro de 1915, durante a 24ª sessão da Congregação, recebia o grau de Médico Veterinário o Dr. Dionysio Meilli, primeiro Médico Veterinário formado e diplomado no Brasil. A primeira turma de alunos regulares da escola, colou grau em 11 de novembro de 1917 com 4 alunos. Desde o início de suas atividades até o ano de 1925, foram diplomados 24 Médicos Veterinários. Em 29 de janeiro, após 13 anos de funcionamento, a escola foi fechada por ordem do Abade D. Pedro Roeser.

A quarta escola de Medicina Veterinária a ser criada no Brasil (primeira escola de Medicina Veterinária do estado de Minas Gerais) foi da Escola Superior de Agronomia e Veterinária (ESAV), em Viçosa, criada pelo Decreto nº 6053 de 30 de março de 1922 (inaugurada em 28 de agosto de 1926). A primeira turma foi constituída pelos alunos: Carlos Braz Cola, Pedro Costa Filho, Nestor Giovini, José Dolores de Avelar, Antônio Olivier de Paula Sobrinho, Carlos Domingos Craveiro Durande, Miguel Gione Pardi e Ruy de Araújo Lima. Seu curso de Medicina Veterinária foi desmembrado e transferido para Belo Horizonte em 1942, dando origem à Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A ESAV foi transformada em Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (UREMG) e, em 1969 foi transformada na atual Universidade Federal de Viçosa (UFV), tendo seu curso de Medicina Veterinária recriado posteriormente.